70 anos da UNE: fundação em 37 altera história de duas décadas

Leia a segunda parte do artigo de Carolina Ruy, jornalista e pesquisadora do Museu da Pessoa, sobre a história do movimento estudantil. No texto a fundação da UNE ganha destaque bem como os seus desdobramentos até o final da década de 40. Campanhas marcantes, como “O petróleo é nosso!”, são passadas a limpo com a opinião de historiadores importantes do movimento estudantil, como Arthur Poerner. Leia o artigo abaixo.

Anos 30 e 40 - Criação da UNE
Carolina Ruy*

O 1º Congresso Nacional dos Estudantes, iniciado em 11 de agosto de 1937, na Casa do Estudante do Brasil, marcou a criação da União Nacional dos Estudantes. Nesta ocasião estavam presentes estudantes e militantes da União da Juventude Comunista, criada em 1925 pelo PCB, grupos que já revelavam uma polêmica que acompanhou toda a história da entidade: a UNE deveria servir aos interesses dos estudantes, estritamente, ou ser um meio de organização para atuação dos estudantes na política nacional?

Segundo a avaliação de Arthur Poerner, historiador, a necessidade de participação política dos estudantes e defesa das riquezas nacionais foi o que realmente impulsionou a criação da UNE, tanto que uma de suas maiores campanhas, iniciada em 1948, foi pelo monopólio brasileiro sobre o petróleo, que levou à criação da Petrobrás em 1953. Mas demorou alguns anos, a partir da fundação, para a entidade tomar corpo e ganhar força. Para o jornalista Marco Antonio Coelho, na época da fundação a UNE não tinha a expressão que passou a ter posteriormente, “Os Congressos estudantis reuniam no máximo cem pessoas”, diz ele. “Antes da UNE havia outras associações estudantis, como a CBDU (Confederação Brasileira de Desportes Universitários), o Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito, de São Paulo e a própria Casa do Estudante no Rio de Janeiro.como a UDE (União Democrática Estudantil), formadas pela esquerda, também havia grupos ligados à Igreja Católica”. Só a partir da II Guerra, com as manifestações e a tomada da sede, a UNE ganhou expressão e reconhecimento nacional.

Até a tomada do Clube Germânia, no ensejo das manifestações pela entrada do Brasil na 2º Guerra ao lado dos Aliados, e contra o afundamento de navios brasileiros em território nacional pelos alemães, em 1942, a UNE era sediada na Casa do Estudante.

O presidente Getúlio Vargas, por sua vez, apesar de ter se interessado pela organização estudantil e de ter até recebido dos estudantes uma solicitação de pelo reconhecimento da entidade como “único órgão representante oficial dos estudantes do Brasil”, reagiu às manifestações referentes à II Guerra, criando em 1o de abril de 1943, da conservadora “Juventude Brasileira”, nos moldes da juventude fascista de Mussolini, que instalou na sede da UNE.

Ato que levou o então presidente da entidade, Hélio de Almeida a renunciar como forma de protesto. “Era uma época muito complicada porque Getúlio já tinha tomado algumas posições no sentido da participação na guerra do lado dos Aliados. De um lado a gente era contra o governo autoritário, mas ao mesmo tempo esse governo tomou uma posição correta em relação a guerra. Havia uma certa oposição lá dentro do Congresso e os estudantes começaram a assumir uma atitude contra o governo do Getúlio” (Marco Antonio Coelho).

A relação da UNE com o governo Vargas foi ambígua até a entidade decidir em 1945 romper definitivamente com o Estado Novo. Segundo Coelho, a UNE nasceu com orientação comunista. Na década de 1940, diz ele, “a oposição do Getúlio começou a trabalhar. Recebemos dinheiro da UDN (União Democrática Nacional), porque eles começaram a apostar na articulação dos comunistas, entre os estudantes, para combater o Getúlio. A oposição do Getúlio já estava desarticulada de 1942 em diante. Naqueles anos o que preocupava, do ponto de vista político, era a guerra. Isso que dominava o noticiário, os jornais giravam em torno da guerra e não em torno da política do Brasil. Isso era o que motivava os estudantes, e todo mundo”.

As transformações sociais e econômicas que ocorreram no Brasil a partir da metade dos anos 50, com a abertura da economia, desencadearam movimentos de massa tanto dos trabalhadores quanto dos estudantes. Esses movimentos vão chegar ápice em 1968, quando os militares o reprimem de forma violenta.

* Carolina Ruy é jornalista e pesquisadora do Museu da Pessoa.

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