EM LOUVOR A NIEMEYER, ARQUITETO GENIAL E HUMANISTA SUPERLATIVO


DO QUERIDO AMIGO PROF. ATTICO CHASSOT (lá do Rio Grande do Sul), recebemos:
Meu querido Gilberto Telmo,
de todos os artigos que li, acerca do magno centenário de hoje,
assunto de meu blogue de hoje, esse é dos mais emocionante.
saudades do
achassot
Artigo

O gênio da solidariedade, por Domenico Di Masi*

Nesta semana, a revista semanal Época dedica um grande espaço aos cem personagens mais importantes do Brasil. Cada um deles é apresentado por um outro personagem ilustre. Oscar Niemeyer é apresentado pelo próprio presidente Lula. Nenhum outro brasileiro, de fato, pareceria mais adequado para descrever um indiscutível, e universalmente amado, gênio como Niemeyer.

Lula escreve: "O meu amigo Oscar Niemeyer costuma dizer que a vida é mais importante que a arquitetura, sintetizando assim a sua filosofia
existencial, a sua conduta profissional e a sua posição política. No momento de completar cem anos de uma existência rica e produtiva, Niemeyer oferece ao Brasil e ao mundo, além de uma obra arquitetônica de beleza inigualável, uma sincera lição de humanismo, de amor e de solidariedade ao próximo. Ainda mais que as suas obras, ele representa o exemplo monumental do artista que nunca se contaminou com o luxo, o poder e a glória, que se insurgiu contra todos os tipos de injustiça e desigualdade e que ama, acima de tudo, o povo de seu país". Nenhum presidente, de nenhuma nação no mundo, poderia dizer o mesmo de um cidadão seu.

Em 15 de dezembro de 2007, Oscar Niemeyer completa cem anos e o Brasil inteiro - do palácio às favelas - se preparou para este dia com uma grande emoção coletiva. E enquanto festeja o seu máximo arquiteto - não como um ídolo, mas como um modelo de vida - no mundo inteiro, de Nápoles a Tóquio, inauguram-se mostras sobre suas obras e se realizam seminários para decifrar a beleza de seus projetos, simples e surpreendentes ao mesmo tempo.

Mas por que este velhinho pequeno e ainda sagaz exerce tanto fascínio e marca, de modo muito decisivo, a arquitetura e a vida do nosso tempo?

Hoje não existe cidade - de Barcelona a Dubai, de Bilbao a Roma - que não possua a ambição de redesenhar a si mesma e a seu próprio perfil, confiando grandes obras aos denominados arquistar: os grandes nomes da arquitetura contemporânea; de Norman Forster a Renzo Piano, de Adid a Jean Nouvel, de Fuxas a Calatrava. Mas Niemeyer precedeu essa tendência de meio século e - único no mundo - realizou mais de 600 construções com as quais mudou a face do Brasil e imprimiu uma transformação na arquitetura de todo o planeta: da Argélia à Espanha, da França aos Estados Unidos. Algumas de suas construções, como o edifício das Nações Unidas em Nova York ou a catedral de Brasília, já fazem parte imprescindível da iconografia mundial, ao lado da Torre Eiffel ou da cúpula de São Pedro.

Mas há outras boas razões que fazem de Niemeyer um gênio singular. É o único, talvez, em toda a história da arquitetura, a ter projetado e construído uma cidade inteira: a primeira cidade nascida depois do advento do automóvel, uma metrópole realizada em quatro anos, sob o impulso do presidente Juscelino Kubitschek.

A outra razão pela qual Niemeyer é uma figura singular consiste no fato de que, com ele, pela primeira vez, o Terceiro Mundo se expressou através de uma arquitetura profundamente indígena e capaz, todavia, de competir, em razão da audácia tecnológica e da pureza de formas, com a grande arquitetura do Primeiro Mundo; de confrontar-se, com cabeça erguida, com os Gropius e com os Le Corbusier. Este último, além disso, assinou com Niemeyer duas construções: aquela já lembrada das Nações Unidas e a do Rio de Janeiro destinada ao Ministério da Cultura.

No dia de seu centésimo aniversário, almoçarei com Niemeyer e com seus amigos mais queridos.

Sei já o que nos diremos. Como sempre, recordaremos os anos em que estávamos em Paris: eu como estudante e ele como exilado, ambos sem dinheiro. E então Oscar retomará, como sempre, o argumento que mais o angustia: os pobres de seu país, os sofredores da terra, as ditaduras a derrotar, as opressões a eliminar.

O seu escritório, simples e incomparável, onde nasceram todas as suas obras-primas, encher-se-á, gradualmente, de sombras e de esperanças, porque Niemeyer, nunca pessimista, permanece convicto de que a parte sã da humanidade prevalece sempre sobre a parte doente.

Devo confessar: sou feliz por ser amigo deste gênio leal. E estou orgulhoso de que ele me tenha presenteado com o projeto de um auditório que está surgindo em Ravello, no sul da Itália, de onde milhões de emigrantes partiram para o Brasil.

Com esta obra única e genial como o seu projetista, renova-se a grande amizade entre os dois povos daqui e de além-mar, no sinal de solidariedade.
Não por acaso Niemeyer costuma dizer: "Um senso de solidariedade me acompanhou por toda a vida. Eu me envergonharia se fosse um homem rico".

Domenico Di Masi*

*Sociólogo e escritor

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